VELAME INADEQUADO

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VELAME INADEQUADO – “EXISTEM PILOTOS VELHOS E EXISTEM PILOTOS AUDAZES, MAIS NÃO EXISTEM PILOTOS VELHOS AUDAZES”

A frase acima representa uma lei na aviação, pois estatisticamente a maioria absoluta dos pilotos que tentaram levar os vôos arrojados (e nem sempre disciplinados) como uma constante, acabaram se acidentando.
Formalmente não temos no pára-quedismo nacional uma estatística relacionada aos acidentes, muito menos sobre qual foi o velame utilizado e o quanto este poderia ter contribuído ou efetivamente contribuiu no acidente. Nos Estados Unidos, os últimos anos têm demonstrado que um terço dos acidentes fatais ocorreram sob velames abertos e funcionais, mas indevidamente operados quando próximo ao solo.



Mas não é este o objetivo deste texto. Embora seja muito importante que os candidatos a uma vida arrojada sob velames radicais tenham ciência dos funcionamentos e fatores que aumentam ou minimizam os riscos, em maior ou menor grau, estes praticantes sabem que estes existem. A questão aqui recai sobre aqueles que “pensam” não estarem sob condição de risco iminente, mas estão!



Considerando os assuntos até aqui abordados sobre velames, não é necessário repetir as advertências sobre o uso inadequado de um velame em relação à experiência do pára-quedista ou a uma situação momentânea, como saltos de demonstração. O importante agora é falar sobre seus efeitos.
Qualquer decisão na vida cotidiana envolve tanto benefícios quanto malefícios. Cabe a nós, simples mortais, administrar estas escolhas. Normalmente optamos por aquelas que oferecem mais vantagens que desvantagens.



O fator de definição de “sucesso” no processo de escolha está no domínio ou nível de conhecimento sobre o assunto.



Aqui vai um exemplo simples: se tenho um orçamento de exatos R$ 20.000,00 e compro um carro O km de R$20.000,00, obviamente, estou cometendo um erro, pois despesas com IPVA, seguro obrigatório e despachante podem exceder o orçamento em até 10% (isso sem considerar o seguro). O aprendizado vem após a primeira “burrada” ou depois de ter presenciado alguém cometendo este equívoco. Então, deve-se pesquisar antes da compra do próximo velame, como forma de antever os potenciais
problemas.



A escolha de um velame tem alguns detalhes significativos. Como o que “machuca” é a soma das componentes velocidade e obstáculo, optar por um velame rápido é abdicar do direito de administrar a velocidade e tê-la como variável, passando a tê-la como uma constante. Desta forma, a única variável passível de administração quanto a um incidente será ter ou não um obstáculo pela frente. É o equivalente à relação estado civil/ moradia e emprego. Ser solteiro e morar com os pais significa que a perda do emprego não acarretará fome ou desespero. Por outro lado, se o cara é casado, tem filhos e paga aluguel, a perda do emprego vai causar estresse, dificuldades financeiras, familiar, social…



Felizmente poucos aqui tiveram algum acidente ou incidente no pára-quedismo, mas como forma de melhor compreensão podemos importar as situações do cotidiano em auxílio ao esporte. Quem já bateu o carro, foi demitido ou perdeu um conhecido sabe o quanto é difícil passar por essas situações e, seguindo este raciocínio, pode interpretar o quão maléfico pode ser um acidente no pára-quedismo.





No momento imediatamente após o acontecimento bate aquela sensação de vazio. Tudo estava bem e agora não está mais. “Se eu tivesse agido diferente, isto não teria acontecido”, é uma frase que logo vem à cabeça. Ter dirigido sob efeito do álcool; se ausentado do trabalho para as finais do campeonato de futebol; não ter carregado “à força” um ente querido ao médico… São muitos os motivos que nos fazem querer voltar ao passado e fazer tudo diferente.



E aqui entra um fator relevante. O pára-quedismo não está entre os esportes mais bem quistos ou entre os mais “normais” no entendimento das pessoas “normais”. Portanto, todo e qualquer acontecimento que deponha contra esta atividade (que proporciona tantas emoções e que tanto cativa a quem pratica) acaba por denegrir sua imagem e alimentar o conceito de esporte de risco.



Passado o trauma inicial e a inevitável auto-penalização pelo que deixou de ser feito, vem o mais caro dos preços. O processo de recuperação pós-acidente é traumático, caro e, invariavelmente, com seqüelas. Os efeitos se darão sobre a família, profissão e amigos. Para o atleta, implicará, entre outras coisas previsíveis, em deixar de praticar por algum tempo um esporte que ama.



Entre os fatores conhecidos que influenciam a compra de um velame, sobretudo dos radicais, está o tal do “ego” ou, em mesmo nível, “o que os outros acham”. É muitíssimo comum em várias áreas do Brasil a escolha de um velame radical sem ter condições ou experiência para utilizar seus “recursos” radicais. Por não saber usar tais recursos ou por não ter experiência suficiente, o pára-quedista não apenas fará um pouso “choco”, como também não terá precisão.



O efeito é que, além dos riscos incorridos pela escolha inadequada, os mesmos “amigos” que admiram o velame radical farão piadas sobre a performance do amigo. Coisas do tipo “vai girar alto” (de medo) e fazer “pouso de student”, além disso, vão apostar se, desta vez, o dono do velame radical vai conseguir pousar longe da cerca. Os benefícios ao ego passam a não ter muita relevância, pois ninguém dá atenção a quem tem uma máquina nas mãos e não sabe usar.



Outro fator que implica na escolha do velame é o financeiro. Muitas pessoas trocam seu velame por outro com dois níveis de performance acima do atual (quando o aconselhável seria um nível) como forma de “valorizar” o investimento. Usando como exemplo a conhecida linha PD, partem do pressuposto de que sair de um PD e subir a escala para o Sabre é perder dinheiro, pois logo terão experiência para trocar de velame. Então acabam optando pelo Stiletto (ou sair do Student e passar para o Sabre, ou sair do Sabre e passar para o Vegeance – seqüência natural de performance seria: Student, PD, Sabre2, Stiletto (ultrapassado), Vegeance, Velocity). O equívoco é grotesco, pois não apenas são necessários no mínimo 200 ou 300 saltos para começar a conhecer bem um velame, como também, e principalmente, pular níveis de performance implica em potencializar os riscos inerentes à velocidade por falta de experiência e retardar, por este motivo, o aprendizado com o velame novo.



Em analogia, ter um velame acima das condições técnicas individuais é, além de dar margem aos acidentes, colocar-se em expectativa frustrada. Todos sabemos, por exemplo, que Rubinho Barrichello tem nas mãos um dos melhores carros da F1, mas seu retrospecto de resultados é medíocre. Outro exemplo é a seleção brasileira, que até ganha os jogos (pousa em pé), mas não tem o desempenho esperado, visto que possui grande parte dos melhores jogadores do mundo. Por outro lado, é emocionante lembrar os tempos em que Piquet ou Senna conseguiam ganhar uma corrida com um péssimo ou desacreditado carro, ou ainda, quando uma inexpressiva Coréia ou Senegal tiram da Copa do Mundo de futebol alguns dos principais candidatos ao título. Não é o velame que faz o pára-quedista. É o pára-quedista quem faz o velame.





ARTIGO PUBLICADO NA AIR PRESS Nº 98

TEXTO: EMILIO CALDEIRA

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