Será que os pára-quedistas se preocupam com segurança?

Se eu aprendi alguma coisa em meus trinta e cinco anos neste esporte é que é muito difícil tornar a maioria dos pára-quedistas interessados em segurança. Anos atrás, quando ficou claro que meu pilotinho “hand deploy” e o sistema de três argolas tornavam possível comandar uma pane e se livrar dela 500 pés mais rápido do que permitiam os pilotinhos internos existentes (tipo ripcord) e o sistema de desconexão da Capewell, muitos pára-quedistas simplesmente começaram a comandar seus principais 500 pés mais baixo, completamente negligenciando a melhoria de segurança que esses sistemas ofereciam.

Mesmo hoje, muitos pára-quedistas pensam que porque todo equipamento é certificado (TSO), todos são igualmente seguros. Infelizmente isto não é verdade e muitos pára-quedistas acabam sempre escolhendo beleza no lugar de segurança. Eis alguns exemplos do que quero dizer, começando da década de sessenta até os dias de hoje.



Vejam essa pessoa.
Será que ela se preocupa com segurança?!?!?!

1. O exército descobriu que se você colocar uma faixa de dois pés de largura de tela fina ao redor da borda de um velame redondo, você elimina a pane de abertura mais comum, que é a inversão parcial. O truque funcionou tão bem que as panes nos saltos enganchados das tropas caíram de 1 a cada 250 para 1 a cada 250.000. Uau!
Então, uma empresa que fabricava reservas redondos para o mercado esportivo (ainda não existiam reservas retangulares) desenvolveu um reserva com uma tela “anti-inversão”. NINGUÉM o comprou. Você sabe o motivo, claro … o volume dobrado era 10% maior. Os pára-quedistas desprezaram um aumento comprovado de mil vezes na segurança em troca de um volume menor.

2. Acredite ou não, há uma escolha similar (embora não tão drástica) que os pára-quedistas estão fazendo quando compram um reserva retangular hoje. Vou explicar. Os primeiros velames retangulares vinham sem “sliders”, então eles tinham que ter uma construção super reforçada. Isso significa, entre outras coisas, que havia um cadarço de reforço costurado na direção da envergadura (de ponta a ponta) entre os pontos de conexão das linhas. Com o advento do “slider” e de velames de abertura mais suave, alguns fabricantes começaram a retirar os cadarços de reforço dos reservas retangulares. Por que? Porque barateava a construção e (adivinhe) reduzia o volume. Isso se provou ser uma escolha sábia (pelo menos do ponto de vista comercial) porque, embora a maioria dos pára-quedistas escolha o principal pela performance e durabilidade, eles quase sempre escolhem o reserva baseados no preço e volume. Embora reservas sem este reforço sejam satisfatórios em muitas situações, vimos recentemente que eles tendem a falhar estruturalmente (estourar) quando os pára-quedistas ultrapassam os limites (isto é, pessoas grandes em velames pequenos, e comandos em headdown a grandes altitudes). Parece que a preocupação por segurança não mudou em nada desde a tela “anti-inversão”.

3. O tri-ring (sistema três argolas) padrão (grande) jamais causou problemas para os pára-quedistas. Eles SEMPRE desconectam facilmente e NUNCA se rompem, entretanto, o mini tri-ring é mais bonito, logo, é o que todos querem comprar. Não importam todos relatos de desconexões difíceis ou impossíveis ou mesmo de tirantes que se romperam na abertura. Não me entenda mal, tri-rings corretamente construídos e com manutenção adequada são capazes de suportar quaisquer esforços que os velames Zero-P mais modernos possam infligir. Infelizmente, porque estes estão sendo levados aos limites extremos, devem ser fabricados com perfeita EXATIDÃO. Muitos fabricantes não conseguem ou mesmo não tentam atingir esse nível. Em contrapartida, o tri-ring convencional (argolas grandes) apresenta tamanha vantagem mecânica que mesmo um tirante mal construído ainda vai funcionar direito. Mas ter um equipo bonito vale mais do que ter segurança, não é?

4. A linha de Spectra (ou microline) é forte e pequena e assim reduz volume e arrasto, o que significa que você fica com um equipo menor e um velame mais rápido. Infelizmente, ela tem duas “particularidades de projeto” (este é o outro nome que os fabricantes usam para “problemas”). É muito escorregadia (menos fricção para desacelerar o slider na abertura) e estica menos que aço inoxidável. Foi por isso que tanta gente se feriu e tantos tirantes se partiram quando ela foi introduzida no mercado. Atualmente, tenho que admitir que os fabricantes de velames fizeram um trabalho maravilhoso lidando com essas características inventando novos velames que abriam muito mais macio que seus predecessores. Entretanto, o fato permanece, ainda que seja raro, se ocorrer uma abertura forte em um velame com microline (ou Vectran), a linha transmitirá todo choque da abertura para você (e seu harness) em um intervalo de tempo muito curto, resultando em um choque até 300% maior do que se você estivesse usando linhas de Dacron (É como fazer bungee jump com um cabo de aço inoxidável ao invés de um elástico). No ponto mais baixo da queda, teu corpo aplica a mesma força ao cabo de aço que aplicaria ao elástico, mas como o aço não estica ele arranca suas pernas fora. Então por que motivo eu haveria de ter uma abertura rápida? Bem, você ou seu dobrador esqueceu de “descolapsar” seu “slider” colapsável. BAM! Ou talvez você esteja mergulhando num headdown a 160 milhas por hora com um equipamento que não foi projetado para isso, e você sofre uma abertura prematura. BAM! de novo. O ponto é: Se você quer abusar dos limites, e ainda desfrutar de todo prazer que este esporte tem para oferecer, com segurança, precisa escolher cuidadosamente o equipamento que usa. Se você pesa 90kg e voa muito headdown, talvez não devesse estar usando um reserva sem reforço longitudinal, mini tri-rings ou tampouco velames com linhas que não esticam (Microline, Vectran ou HMA).

Não importa seu peso, você deve se informar sobre equipamentos e só saltar com aqueles projetados para o seu tipo de salto. Muitas fatalidades acontecem por escolhas que os pára-quedistas fazem ANTES mesmo de subir no avião. Não entre para esse grupo, seja mais esperto. Estar na moda, pelo menos no pára-quedismo, pode te matar.

Texto: Bill Booth
Tradução: Marcelo Karklin
Revisão: Ronaldo Nogueira
Titulo original: Do skydivers care about safety?
Fonte: Site Dropzone
Link: http://www.dropzone.com/content/Detailed/19.html

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