Arrastos Desnecessários

Você conhece bem seu pilotinho?
Sabia que ele pode influenciar a performance e a segurança do seu salto?
Então fique atento à melhor maneira de utilizá-lo.

O conjunto chamado de pára-quedas tem três elementos básicos: equipamento, velame principal e velame reserva. Desse básico, tem grande destaque uma parte específica: o pilotinho. Tanto no acionamento do principal como do reserva, ele é o responsável pela maior parte da abertura do velame.

O do reserva diferencia-se do principal pela presença de uma mola que tem o intuito de extrair o reserva com rapidez e segurança. Já o do principal não necessita de mola, pois é o próprio pára-quedista que o extrai de um alojamento e o expõe ao vento relativo. Seu diâmetro varia de 70 a 85 cm, em média, o suficiente para reter ar e executar uma abertura rápida e não forte.

Após executada essa tarefa, o pilotinho do principal continua exposto ao vento, criando um forte arrasto ao velame, afetando performance e, até, segurança. Nos velames específicos para a prática de Trabalho Relativo de Velame (TRV), por exemplo, depois de executada a abertura, se o pilotinho ficar exposto, pode enroscar-se a outro velame, já que o contato, nessa modalidade, é inevitável.

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Para solucionar o problema, fabricantes de velames de TRV desenvolveram um sistema onde a fita do pilotinho (bridle), passa por um ilhós fixado no meio da célula central, passa por dentro do velame e é conectada à cauda. Ao dobrar o velame e comprimi-lo, a bridle é puxada para fora, ficando com sua medida normal de, em média, 150 cm.

Quando se inicia a abertura e o velame começa a inflar e expandir, a bridle é puxada para dentro do velame, até que esteja ele todo aberto e o pilotinho “preso” exatamente no meio do velame onde está o ilhós que a fita corre. Nesse sistema, no entanto, o velame tem de ser devidamente reforçado (por conta do atrito contínuo da bridle), o que gera um grande aumento de volume e peso.

Já os velames de nove células têm no pilotinho um arrasto que chega a prejudicar de 10 a 30% da performance, o que é muito considerável. Nesse caso, o sistema descrito acima não pode ser usado, já que o aumento de volume e peso prejudicaria a performance do velame. Para essas condições existem três maneiras de anular o arrasto do pilotinho.

A primeira seria colocar um ilhós maior na bolsa principal, permitindo que ela deslize solta pela bridle até alcançar o pilotinho e envolvê-lo, anulando seu arrasto. Nesse caso, o desgaste da base do pilotinho é grande devido ao constante atrito com o ilhós da bolsa salto após salto. Com o tempo, o pilotinho é destruído. Fora esse problema, a assimetria da bolsa envolvendo o pilotinho causará inúmeras torções na bridle durante a navegação, dificultando posterior dobragem.

O segundo sistema usado freqüentemente é o retrátil. É simples, barato e relativamente funcional, mas pode se tornar muito perigoso. Nesse caso, por um conduíte ou alojamento construído a uns 40 cm da bridle, passa-se um elástico que é preso às duas extremidades, uma no topo do pilotinho e outra ao final do conduíte da bridle. A uma certa velocidade (em torno de 100km/h) que varia com o tamanho e a elasticidade do elástico, este cede e deixa o pilotinho inflar e executar o seu trabalho. Já a uma velocidade menor, o elástico mantém o pilotinho retraído, anulando o arrasto durante a navegação. Como pode-se notar, esse sistema depende do material usado e da velocidade em que você se encontra.
Se a velocidade atingir o limite do elástico e este ceder, inflando o pilotinho, o arrasto súbito criado freará as células centrais e fará com que as laterais encostem umas nas outras. Isso, a baixa altura, na última curva para o pouso, por exemplo, pode ser fatal!
Cuidado!

O último sistema, que é o melhor deles, sem dúvida, é o pilotinho colapsável.
Basicamente, ele possui uma linha de Kevlar que é presa ao topo do pilotinho, passa por dentro de uma bridle especial do sistema e vai até a outra extremidade presa ao topo do velame. A bridle é presa à bolsa e uma extensão dela é, então, presa ao velame. Essa extensão tem a medida da linha de centro do pilotinho e é ela quem vai retrai-lo na abertura do velame.
Nesse sistema, no momento da abertura, o piloto está funcionando com 100% de sua capacidade de reter ar, pois nenhum elástico o está forçando. Depois de ter cumprido sua função, extraído todo o velame do container e esticadas suas linhas, resta agora o velame sair da bolsa, e é nesse momento que a extensão da bridle (com a mesma medida da linha de centro do pilotinho) entra em ação. À medida que o velame está fora da bolsa, essa ainda está sendo “puxada”, tendendo a se separar do velame. Essa força faz a extensão esticar e, conseqüentemente, puxar a linha de Kevlar, colapsando definitivamente o pilotinho.

Depois de cada salto é necessário que o sistema seja “rearmado”, puxando de volta a linha de Kevlar pelo topo do pilotinho. O sistema conta com uma janela na bridle para que o atleta ao fazer o habitual cheque de pino confira também se o sistema está armado conferindo a linha de Kevlar pela cor: amarelo (desarmado) ou preto (armado).

É um sistema moderno, seguro e funcional pois é inflável a velocidades muito baixas (como um piloto normal) e, depois de aberto o velame, não inflará novamente, seja qual for a velocidade. Para garantir sua segurança, que deve ser sempre colocada em primeiro lugar, prefira essa técnica e faça bom uso de seu pilotinho.
Bons saltos!

Texto: Ricardo Contel

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