Um esporte de risco precisa ser respeitado

Quando falamos em segurança no pára-quedismo, aqueles que ainda vão saltar logo pensa em equipamento, no pára-quedas. As pessoas que nunca saltaram antes sempre vão fazer aquela clássica pergunta: “E se o pára-quedas não abrir?”. Segurança, para esses terráqueos que jamais sentiram a adrenalina correr nas veias com nossos corpos em queda livre, atingindo velocidades acima dos 200 km/h, está um pouco limitada à confiança nos equipamentos que utilizamos. Isso faz sentido, mas não é tudo, e tampouco o mais importante.

Já os pára-quedistas, quando pensam em segurança, talvez visualizem o ajuste correto dos altímetros, que nos orientam e indicam a altura limite para acionarmos nossos pára-quedas e desacelerar nossos corpos para não batermos de frente com a mãe Terra (deve doer à beça). Ou talvez pensem no rigger que dobrou o seu pára-quedas reserva, confiando a esse profissional a boa manutenção de seu segundo (e último) cartucho, quando as coisas vão mal com o pára-quedas principal.

Estatísticas de alguns anos atrás indicam que o reserva é utilizado a cada 1.000 saltos. Eu, particularmente, já passei da casa dos 1.000, mas ainda não utilizei um reserva. Pedrosan, repórter da Air Press e atual campeão brasileiro de FQL 4 já passou dos 3.000 saltos e possui apenas um acionamento de reserva.

Ainda falando-se de segurança, esses atletas podem lembrar dos DMs (Dispositivos de Acionamento Automático), que disparam o reserva de um pára-quedista que venha, por exemplo, a desmaiar em plena queda livre. Enfim, a linha de raciocínio, quando falamos em segurança, geralmente leva ao equipamento que utilizamos para o salto. Mas, na realidade, essa questão tem outro fundamento.

Evidentemente, para a prática do pára-quedismo é necessária a utilização de vários itens para mantermos a segurança máxima. Entretanto, ela existirá apenas se o atleta respeitar os procedimentos padrões, as regras básicas de segurança e agir sempre, salto após salto, com uma atitude segura. O pára-quedismo será seguro se o praticante for uma pessoa prudente. Afinal, pra que servirá um altímetro se não o checarmos constantemente durante nossa queda? E o pára-quedas, então? Como um carro, ele precisa de inspeção periódica, para garantir sua boa funcionabilidade, ou melhor, sua PERFEITA funcionabilidade.

Além desses fatores relaciona dos aos nossos equipamentos para a prática desse maravilhoso e empolgante esporte, há ainda a necessidade de atenção constante durante a equipagem, o embarque, a subida no avião, a saída da aeronave, a queda livre, a navegação e o pouso. Ufa! Quanta coisa! Mas será que sobra tempo pra se divertir? Claro, basta criarmos uma simples rotina de segurança que todas essas situações estarão bem administradas.

 

Equipagem

Quando estamos equipando, é necessário checar a bridle (fita do pilotinho) para qualquer sinal de desgaste do velcro. Cheque o ponto de junção do pino do principal. Deve estar em ótimo estado. Cheque também os cabos do desconector, puxando-os na base com o dedão, sentindo se estão livres, sem muito atrito (é imperativo lubrificá-Ios sempre a cada redobragem do reserva -quatro meses -, pelo menos). Cheque se os dois punhos, o do reserva e o desconector, estão firmes e bem alojados. Siga a bridle até o pilotinho do principal e constate se ele está bem alojado, evitando que saia do pocket em algum momento desapropriado. Por último, cheque se seu DM está ligado, aproveitando para verificar também o pino do reserva. Pronto, você já fez um cheque completo e não demorou mais que 20 segundos. Equipe-se e ajude seus companheiros a realizar o mesmo controle.

 

Embarque

Ao andar à aeronave, evite qualquer brincadeira com o equipamento de seu colega. Procure respeitar os mais experientes e seguir as instruções para se acomodar na aeronave. Principalmente se for um avião de médio porte, como um King Air ou um Caravan. Ao acomodar-se, certifique-se que seus punhos e pilotinhos não estão sujeitos a se enroscar em algum lugar como os pés de seu colega que está sentado atrás de você, por exemplo. Todo páraquedista sabe que, ao nos acomodarmos na aeronave, nosso espaço é pequeno, portanto, toda atenção ao seu equipamento é pouca. Procure não se mexer muito dentro da aeronave e aproveite o tempo de subida para se concentrar no salto.

 

Subida da Aeronave

Antes vamos lembrar algumas regras na decolagem. Sempre atentos às ordens do comandante que está pilotando nosso avião. Obedeça tudo o que ele pedir sem hesitar. Na subida da aeronave, é bom estarmos atentos aos equipamentos de nossos colegas, pois estes não enxergam suas costas.

Quando estiver a dois minutos do lançamento, comece a se levantar e se preparar para a saída. Muito cuidado para não enroscar em uma bridle ou aba protetora de algum colega a bordo. Peça para alguém fazer um último cheque no pino do seu principal.

 

Saída da aeronave

A saída é um momento crítico, mas se respeitadas regras básicas de segurança, não há como acontecer algum imprevisto. Antes de qualquer coisa, cheque o PS (ponto de saída). Veja se a área da qual você vai se lançar do avião está próxima do local para pouso. Muitos se esquecem desse pequeno detalhe, confiando totalmente no piloto. O PS é responsabilidade do pára-quedista.

Ao sair para fora da aeronave e se ajeitar para um saída de TR, Free Fly ou outra modalidade qualquer, fique sempre atento aos punhos. É nessa hora que eu, pessoalmente, recomendo equipamentos com punhos de reserva similares ao desconector, almofadados (soft handle). Eles garantem uma proteção maior, pois são difíceis de se desalojar num momento como esse. Já presenciei, algumas vezes, um punho de metal batendo no peito do páraquedista. Não é uma imagem muito atraente, não. Para quem pratica muito Free Fly, o soft handle deveria ser padrão.

A saída deverá ser sincronizada e todos deverão sair da aeronave ao mesmo tempo, principalmente os de fora. Se o salto estiver sendo realizado de um King Air, por exemplo, e houver pessoas para fora da aeronave, próximas à cabine do piloto, essas deveriam sair talvez até antes do já. Imagine se elas saem depois, e esbarram com outras que estão ainda saindo pela porta. Cuidado. É muito simples evitar uma colisão dessas.

 

Queda Livre

Durante a realização do salto, fique sempre de olho na altura, atento aos seus colegas e nunca esteja abaixo da formação. As aproximações devem ser feitas com cautela, sem muita velocidade ou inércia quando estiver próximo da formação, evitando assim, um impacto que pode causar desde uma fratura, até um desmaio, dependendo da intensidade e local do impacto.
Na altura determinada para a separação, faça-a imediatamente, com um bom track. Um track perfeito é aquele em que você consegue uma grande separação horizontal, sem perder muita altura. Assim você se distancia ao máximo de seus colegas, possibilitando encontrar um local seguro e aberto para comandar seu pára-quedas.

Vale lembrar que altura de separação não é o momento de realizar um head down, após um bom salto de TR.
Nesse momento, um altímetro sonoro é um instrumento muito importante e extremamente prático, que sinaliza na altura exata da separação, o término do salto.

Atualmente, os altímetros sonoros possuem, inclusive, outros dois ajustes de apito, que podem ser colocados para o momento de acionar o pára-quedas e um último para lembrar-lhe que o chão está realmente perto e uma ação rápida e extrema deve ser tomada.

 

Navegação e Pouso

Um dos gigantes do pára-quedismo, o americano Jerry Bird, mais de 10.000 saltos pelo mundo todo e com mais de 50 anos, ainda na ativa, presente nos principais boogies conhecidos mundialmente, costuma dizer: “há dois momentos que mais me assustam no salto -separação e pouso”. Eu penso o mesmo. Com o advento de velames mais velozes, o slider colapsável tornou-se acessório imprescindível para aumento de performance. Além disso, acaba com aquele barulho chato de pano batendo bem acima de nossos ouvidos. Constantemente, quando realizo saltos médios para grandes, de um 6-way para um 40-way, é muito comum eu ver a seguinte cena: um pára-quedista comanda seu pára-quedas e, enquanto este ainda está inflando, lá vai o infeliz colapsar seu slider. Isso é um grande convite para um desastre.

Nossa atitude ao comandar o pára-quedas, enquanto ele ainda está inflando, é olhar ao nosso redor. Acima, abaixo, à frente, à direita e à esquerda. TODOS os setores devem ser vasculhados pelos nossos olhares atentos, procurando aquele pára-quedas que poderá colidir conosco. Uns podem pensar que isso é muita neurose, mas eu sempre procuro o infeliz que vai bater com o meu pára-quedas. Assim, estou sempre preparado para o pior e sei como reagir. Posso agir rápido e me safar de alguma imprudência de terceiros. E mesmo que todos sejam muito prudentes no céu, ainda há o fator twist que, torcendo as linhas de um velame de maneira incontrolável, deixa o pára-quedista sem qualquer recurso de manobra de seu velame.

Portanto, toda vez que comandar seu pára-quedas, olhe à volta e veja se todo o céu está livre, sem risco de colisões. Depois, sem desfazer seus freios ainda, para seu velame voar calmamente, utilize os tirantes para virar em direção à área de saltos, se ela estiver longe. Só então, certificando-se novamente de que o espaço está livre de outros companheiros, é que deve ser ,dada aquela atenção ao seu slider. Colapseo, ponha suas mãos no freio e comece a pilotar seu velame pelos céus. Curvas rápidas e afiadas são divertidas, mas sempre muito cuidado com alguém abaixo e nas proximidades. O velame ganha muita velocidade, além de perder muita altura. Todo cuidado é pouco.

Procure manter um padrão que é basicamente mundial: ao se aproximar da área de pouso, sempre realize curvas com o alvo à sua esquerda, assim não há risco de colisão frontal. Não corte a frente de ninguém. Respeite quem está realizando aproximação final para pouso. Dê preferência para quem está abaixo.

Atualmente, os índices de fatalidades que ocorrem em nosso esporte apontam para uma grande imprudência por parte dos atletas, especialmente quando realizam um pouso radical. Mantenha sempre uma conduta de prudência e respeito à vida. Não realize curvas à baixa altura, tampouco aventure-se a realizar manobras de risco com um velame no qual você tem pouca experiência. Os atletas que realizam essas manobras costumam ter, no mínimo, algumas centenas de saltos com um mesmo velame, além de milhares de saltos em suas carreiras.

Este texto eu desenvolvi para mostrar que a segurança no pára-quedismo não depende exatamente de nossos equipamentos. Atualmente eles estão muito avançados e são extremamente seguros. Praticamente infalíveis. A segurança depende de nós. Da nossa atitude como páraque distas que respeitam os limites de nossos equipamentos e que estão sempre atentos a pequenos detalhes descritos aqui, que farão uma grande diferença em nosso cotidiano de saltos.

Lembre-se: sempre que saltarmos e tudo correr bem, nos divertirmos bastante, foi conseqüência dessa consideração mínima com nossa segurança e com a segurança de nossos amigos.

Bons saltos. Bons pousos. Boa diversão.
Ricardo Contel

(Ricardo Contel, é editor da Revista Air Press. Já foi campeão brasileiro de FQL-4 Intermediário e é Master Parachute Rigger FAA.)

2 thoughts on “Um esporte de risco precisa ser respeitado

  1. Carlos Silveira em

    Quando comecei a praticar paraquedismo em Moçambique em1972,o meu instrutor disse -me duas coisas que nunca esqueci. 1- Nas outras modalidades desportivas tudo é permitido,exceto algumas situações que são penalizadas ,no paraquedismo nada é permitido exceto algumas situações que não nos penalizam.2- Mais vale perder um salto,do que perder muitos(isto mais em relação ao vento). O artigo esta muito bem feito sem muitas palavras técnicas mas de fácil compreensão .Parabens e bons saltos.

  2. Gustavo Almeida em

    Muito bacana as dicas… É sempre muito bom relembrá-las… Fica aqui meu abraço grande rucar… Blue skys e pousos suaves…

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