Terminei o curso… E agora?

Fazer um bom PS, se expor adequadamente ao vento relativo, realizar aproximações seguras e manter a razão de queda do companheiro de salto ou formação são apenas alguns dos fundamentos que devem ser aprendidos e treinados em todos os saltos.

“Zezinho pega a bola no meio do campo, joga mais à frente, vem o primeiro adversário, ele dribla pela direita, vem o segundo, ele passa pela esquerda, vem o terceiro, já na entrada da área, ele joga a bola por um lado e passa pelo outro, vem o goleiro, Zezinho dá um chapéu inacreditável e agora não há mais ninguem. Apenas Zezinho e o gol a 2m de distancia. Ele chuta e… Pra fora !”
Este, com certeza, seria um momento desesperador para qualquer torcedor do time do “Zezinho”. E aí perguntamos: o que aconteceu? Provavelmente a resposta seria, “Zezinho não anda treinando muito os fundamentos do futebol.”

Todos nós sabemos que os fundamentos de qualquer esporte devem ser treinados para serem usados quando necessário. Jogadores de basquete treinam lances livres incansavelmente todos os dias. Jogadores de vôlei treinam saques durante horas a fio. Jogadores de futebol treinam cobranças de pênaltis diariamente. E mesmo assim, às vezes, erra. E se esses fundamentos não fossem treinados, ou pior, se esses fundamentos não fossem conhecidos pelos atletas?

No paraquedismo também existem fundamentos. Saber fazer a reta de lançamento, um bom PS, se expor adequadamente ao vento relativo, realizar aproximações seguras, manter a razão de queda do companheiro de salto ou formação são apenas alguns dos fundamentos que devem ser aprendidos e treinados em todos os saltos.

Antigamente, quando o paraquedismo era praticado em menor escala, todos os alunos, quando acabavam o curso básico, procuravam seus instrutores para cursos avançados. É certo que naquela época o volume de saltos era menor, a progressão era mais lenta, mas isso fazia com que o recém formado ficasse mais tempo na área de salto sem saltar. Isso sempre teve seu lado positivo, as pessoas treinavam melor e se preocupavam mais com o salto, pois era preciso esperar muito para o próximo.

Hoje as coisas são um pouco diferentes. Os aviões são maiores, mais rápidos, existem mais equipamentos de aluguel e tudo mais que é necessário para fazer cinzo, oito, 10 saltos em um dia, mesmo para aqueles que acabaram de se formar. Mas toda essa evolução ocasiona problemas que antes não existiam. Os alunos recém formados começam a saltar solo e logo depois já estão com 50, 60, 100 saltos, utilizando velames inadequados para sua experiencia e fazendo saltos com seus amigos com o mesmo número de saltos.
Não que isto esteja errado, mas na maioria dos casos esses atletas não procuram instrutores ou mesmo pessoas com maior experiência para aprender os tais fundamentos.
Resultado: PS ruim, aproximações perigosas, tracks mal feitos, comandos próximos, navegações horríveis, colisões de velames, pousos desastrados e muitos, muitos ossos quebrados.

Mas de quem é a culpa afinal?
De todos. Dos alunos, dos recém formados, dos pouco e muito experiêntes, mas principalmente de nós, instrutores, que deixamos nosso esporte chegar a esse ponto.

Quanto digo “nós” não estou me referindo somente aos instrutores básicos, mas também, e mais ainda, aos instrutores avançados e paraquedistas experientes, sejam eles de TR, Freefly, TRV e todas as outras modalidades. Devemos estar sempre observando nossos alunos ou colegas, devemos incluir em nossos cursos todos os fundamentos para a prática do paraquedismo. Devemos lembrar que um salto não é só a queda livre, mas também navegação e pouso, uso de velames e tudo que estiver entre o embarque e a chegada na área de dobragens. Devemos aconselhar os menos experientes para que eles pratiquem com mais segurança e menos euforia o esporte que eles escolheram.

Mas não vamos esquecer de comentar sobre o outro lado. Para queles que estão começando no paraquedismo, procurem seus instrutores, procurem pessoas mais experientes, não deixem que a vontade de saltar, saltar e saltar ainda mais ocasione acidentes por falta de saber e treinar os fundamentos. Nessa fase de aprendizado é melhor saltar um pouco menos, mas com pessoas qualificadas para ensinar, do que saltar mais e se arriscar desnecessáriamente. No final das contas você gastará menos dinheiro para aprender e fará sempre saltos mais seguros.

Texto: Renato Gordinho
Fonte: Revista Airpress nº98

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