Mais importante do que parece

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Problemas de ouvido ou nos seios da face em altas altitudes são mais do que inconvenientes. Eles podem ser tão dolorosos que provocam desorientação ou até mesmo deixam o pára-quedista incapaz de saltar.

Problemas de ouvido ou nos seios da face em altas altitudes são mais do que inconvenientes. Eles podem ser tão dolorosos que provocam desorientação ou até mesmo deixam o pára-quedista incapaz de saltar.

“Eu estava me sentindo bem quando embarquei, mas por volta dos 7 mil pés, tive uma dor intensa nos seios da face. Foi terrivelmente doloroso – muito pior que a pior enxaqueca. Fiquei muito preocupado”, lembra Jeff Tarinelli, de Portland, Oregon. Quando chegou ao chão, Tarinelli imediatamente tomou um remédio e se sentiu bem novamente após 10 minutos. “Agora, eu sempre trago descongestionantes na mochila de pára-quedas, por precaução”, ele diz.
Kimberly Kaplan, também de Portland, teve uma experiência similar. “Durante a subida, eu tive aquela sensação de zunido e entupimento das fossas nasais. Mas não doeu e eu me sentia bem. Durante a queda livre, por volta dos 8 mil pés, senti como se uma faca quente estivesse sendo enfiada direto no lado esquerdo de minhas têmporas. Foi tão intenso que eu tive que comandar a 6 mil pés”, conta.

Dores de ouvido ao saltar

A dor de ouvido durante o salto é originada no ouvido médio, que é, essencialmente, uma bolsa de ar. É normal e necessário que essa bolsa esteja cheia de ar limpo e fresco. Quando há mais ou menos ar do que o ideal dentro dessa “bolsa” é que começamos a ter problemas, como entenderemos melhor abaixo.
Na física, a Lei Boyle diz que quando a pressão do ar aumenta ou diminui, o volume de gás responde na direção oposta. Com isto, durante a subida da aeronave, o ar do ouvido médio irá se expandir e preencher toda a cavidade. Se for sentida uma dor de ouvido durante a subida, normalmente é esse excesso de ar pressionando o tímpano. Mas esse excesso, geralmente, é facilmente absorvido pelas membranas do ouvido.
Já durante a descida, como a pressão de ar aumenta, o volume de ar no ouvido médio irá diminuir. Se a trompa de Eustáquio (tuba de conexão entre o ouvido médio e o nariz) não estiver funcionando perfeitamente, é quase impossível que o pára-quedista tenha a cavidade preenchida novamente. Com um montante insuficiente de ar no ouvido médio, é criado um vácuo doloroso, que puxa e estica o tímpano. Se o vácuo persistir no por muito tempo, o corpo tentará corrigir o problema da melhor maneira possível, preenchendo a bolsa de ar com fluídos, por exemplo.
O Dr. G. Richard Holt, professor e cirurgião do departamento de Otorrinolaringologia da Universidade do Texas, cirurgião militar aposentado, que pertenceu à equipe de pára-quedistas de forças especiais como médico oficial e tem vários anos de experiência no esporte, afirma: “A súbita pressão negativa no tímpano pode levar à vertigem, náusea e vômitos”.
Danos no ouvido médio podem ter várias formas, mas, de acordo com Dr. Holt, “o mais comum é que a pressão negativa no ouvido médio cause sangramento no local, seguido por dores terríveis”. Esta condição é normalmente tratada com descongestionantes e, normalmente, entre três a quatro dias, a recuperação é feita. Difícil e incomum, embora possível, ainda segundo Dr. Holt, é o rompimento do tímpano e suas membranas. O pior cenário seria se a ruptura levasse à perda da audição e a uma vertigem persistente. Nesses casos, a cirurgia é indicada, mas nem sempre é bem sucedida e a perda da audição pode ser irreversível”.

Situações dos seios da face

Os seios da face também são normalmente preenchidos por ar e, como o ouvido médio, são conectados ao nariz, mas por uma rota mais direta. Por isto, qualquer tipo de inchaço no nariz pode levar os seios da face a receber ou expulsar o ar inadequadamente, e o mesmo caso de dor que vimos acima com o ouvido médio pode acontecer.
Um vácuo ou falta de ar nos seios da face, conhecido como “sinus squeeze” pelos mergulhadores, faz você sentir como se as cavidades faciais estivessem explodindo. Isto porque os vasos sanguíneos dentro dos seios ficam entupidos com o sangue e expandem. Na verdade, até é possível que estes vasos sanguíneos vazem, preenchendo as cavidades com sangue. Esta situação coloca a pessoa em alto risco de desenvolver a sinusite, infecção bacteriana com inflamação e bloqueio dos seios da face. Sintomas da sinusite são: dores de cabeça, dores sobre os olhos e nariz, febre, náusea e calafrios. O tratamento é feito com antibióticos e bolsa de água quente sobre a face.
A Academia Americana de Cirurgia de Otorrinolarimgologia (AAO-HNS) recomenda evitar viagens aéreas para aqueles que têm resfriado, infecção dos seios da face ou mesmo crises alérgicas. Contudo, pára-quedistas são um tipo diferente de passageiros aéreos e tentarão estar no ar sempre que possível.
Para determinar se um pára-quedista pode saltar com segurança, Dr. Holt recomenda: “Depois de um resfriado, você deve estar livre de catarros, dor de cabeça, obstruções nasais e de ouvido. ‘Limpe’ os ouvidos antes do salto”.
“Limpar os ouvidos” ou encher o ouvido médio com ar, pode ser feito através da técnica Valsalva: fechar as narinas e, com a boca cheia de ar tentar, delicadamente, compensar a pressão. “Se não consegue limpar os seus ouvidos com a técnica Valsalva antes de embarcar no avião, você deve reconsiderar se deve saltar ou não”, orienta o doutor.
Segundo ele, os problemas de ouvido geralmente aumentam por volta dos 5.000 a 6.000 pés de altura. Se estiver com sintomas de resfriado ou de alergia, o ideal é fazer saltos baixos.

Procedimentos durante o vôo com dor

Se um pára-quedista tiver dores de ouvido ou nos seios da face durante o vôo, Dr. Holt recomenda: “Todo avião de pára-quedismo deveria ter um kit médico a bordo, com spray nasal – se sentir qualquer dor na subida ou descida do avião, use o mais rápido possível. Mas não tente saltar se tiver dor. Volte com a aeronave e peça para o piloto descer devagar”.

Auto medicação e seus efeitos colaterais

Quase todos pára-quedistas que sofrem de alergias ou de resfriados constantes têm o seu próprio remédio para tratar de seus sintomas. Contudo, cada medicamento é indicado para sintomas específicos, têm efeitos colaterais e somente trata os sintomas e não a causa.

* Descongestionantes

Descongestionantes reduzem o inchaço nasal e congestionamentos através da redução da passagem de sangue nas membranas nasais. Eles não acabam com a corisa, mas melhoram a passagem de ar no nariz. São mais efetivos quando usados uma hora antes das atividades de salto.
Descongestionantes são quimicamente derivados da adrenalina, e a adrenalina é um descongestionante natural. Os efeitos colaterais típicos dos descongestionantes são leve sensação de tontura, aumento da pressão sanguínea, aumento do batimento cardíaco e dificuldade de urinar. Não deve ser usado por aqueles que tem doenças cardíacas, pressão alta, batimento cardíaco irregular, problemas de tiróide e ansiedade.

Anti-histamínico

Quando um vírus se estabelece no nariz, o corpo solta uma substância química chamada de histamina para se proteger e atacar o vírus. A histamina aumenta a passagem de sangue para o nariz, e este excesso de sangue é a razão do mucosa nasal aumentar e se tornar congestionado. Infelizmente, não é preciso ser um vírus real para que o corpo se defenda. Em algumas pessoas, os sistemas confundem pólen, poeira e partículas do ar comuns com vírus. Um anti-histamínico impede que o corpo produza a histamina, a substância que o corpo ativa contra vírus nas vias aéreas superiores.
Os anti-histamínicos não desobstruem a trompa de Eustáquio, mas aliviam coceiras nos olhos, corisa e congestionamento nasal. São mais eficazes se tomadas antes da aparição dos sintomas e os efeitos colaterais típicos são: tontura, boca e nariz secos. Hoje, grandes laboratórios oferecem a combinação de descongestionantes, anti-histamínicos e analgésico em um remédio só.

*Imunoterapia

Para quem sofre de alergias, o tratamento que tem mais dado resultado é a imunoterapia, que cria anticorpos no sangue para alergias específicas. Tem menos efeitos colaterais do que os remédios, embora também não esteja livre deles.

*Sprays nasais

Estes tipos de sprays são os mais rápidos, seguros e a mais efetiva forma de limpar as membranas nasais inchadas. No entanto, isto é temporário. Depois de algumas horas, as membranas irão se inchar novamente. O uso contínuo deste medicamento pode fazer com que as veias sanguíneas percam sua capacidade de contração. A AAO-HNS adverte que o uso deste medicamento deve ser feito somente quando absolutamente necessário.

Saltar ou não saltar

Pode ser bastante tentador tentar saltar com ajuda de medicamentos. Para alguns pára-quedistas com constantes alergias, durante a subida, os sintomas parecem ser aliviados. “Como gases se expandem em altas altitudes, eles preenchem o vácuo do ouvido e seios da face que existem nas pessoas alérgicas ao nível do mar. Logo, se sentem melhor – mas isto irá piorar na descida”, alerta o Dr. Holt. Ainda segundo o especialista, “Se você não estiver bem, nenhum medicamento lhe garantirá segurança. É melhor esperar até que as condições respiratórias estejam melhor para o salto. O risco é muito grande”.

Se mantenha ativo durante a recuperação

Esperar a recuperação de uma gripe ou problemas de sinusite pode ser frustrante. “Mas também é uma oportunidade de fazer coisas diferentes dentro do esporte”, diz Ted Farnsworth de Vancouver, Washington. Farnsworth salta há 24 anos e, no ano passado, teve que dar um tempo, devido à recuperação de uma cirurgia. “O que fiz foi dar cursos teóricos para alunos: tirei minha licença de rigger, e ensinei novos pára-quedistas como dobrar. Desde que a doença da qual você está se recuperando não seja contagiosa, você pode seguir o meu exemplo”.

Para mais informações

Segundo a AAO-HNS, resfriados comuns e alergias são a mais comum razão de um nariz congestionado, mas também podem ser sintomas de diferentes doenças. Para pára-quedistas que sofrem de sérios ou contínuos problemas de nariz e ouvido, procurem sempre um especialista.
Visite: www.entnet.org/index2.cfm

Texto: Musika Farnsworth
Colaboração: Lilian Ratto
Fonte: Revista AirPress

12 thoughts on “Mais importante do que parece

  1. Oi,Meu nome e Marcelo Almeida tenho 16 anos ,e meu sonho e ser paraquedista ,mais e um seguinte eu tenho probleminha no meu ouvido esquerdo, isso pode causa algum problema no meu sonho ?ele pode ser interrompido?

  2. Talita Carmona em

    Bom dia, eu fiz 2 saltos na ultima sexta feira, estava resfriada mas como o nariz não estava congestionado não vi problema, o primeiro salto foi normal mas no segundo senti uma forte dor nos ouvidos durante a descida, a dor passou em seguida mas ja se passaram 5 dias e até o momento meus ouvidos ainda parecem entupidos. Alguma dica de algo que eu possa usar? Nesra sexta devo saltar novamente, será que pode piorar?

    • Oi Talita, sobre o ouvido tampado é melhor dar uma chegada em algum pronto socorro, explicar a situação e ver o que o médico indica. Não é normal ficar com ouvido tampado tanto tempo.
      Sobre saltar, se o nariz ainda estiver congestionado com certeza é melhor não saltar. Se for só o ouvido tampado…. é melhor perguntar para o médico tb. 🙂
      Boa sorte e ótimos saltos!!!

  3. Natalia em

    Boa tarde. Eu fiz um salto duplo. Saltei pela primeira vez e durante a queda meu ouvido tampou e no vôo com paraquedas me deu nausea, e vômito quando eu pousei. Mesmo eu passando mal tenho vontade de saltar novamente. Será que vai ocorrer novamente esse mal estar ? Meu namorado saltou e ele falou que não sentiu nada

    • Oi Natalia…
      Vamos lá, são provavelmente dois casos diferentes:

      1) Ouvidos: A pressão no ouvido sempre pode acontecer e se vc estiver gripada ou com coriza esse quadro pode se agravar um pouco.

      2) Náuseas: A aceleração e frenagens nas curvas da navegação podem causar náuseas quando feitas “com emoção”. No seu próximos salto avise o seu piloto tandem e peça para ele realizar uma navegação mais suave, com curvas mais lentas. Avisa ele que vc vomitou. Com certeza ele fará seu passeio ser muito melhor. 🙂

  4. Sérgio Costa em

    Olá, fiz meu primeiro salto. A subida foi tranquila, porém na descida senti muitas dores nos ouvidos, dor de cabeça forte e em seguida náuseas. Se fizer um próximo salto será que ocorrerá novamente?

    • Oi Sérgio,

      É difícil dizer sem saber como você estava, condições climáticas, sem fazer alguns exames, sem saber como foi o vôo e navegação. Enfim, são diversos fatores que influenciam.

      Abraços e ótimos próximos saltos. 🙂

  5. Thais Rocha em

    Olá Mancuzi!

    Fiz um salto duplo, a empresa não me deu protetores de ouvido, senti muita muita dor nos ouvidos e cabeça durante o salto. Pensei que fosse morrer rs.
    A dois dias antes do salto, minha rinite estava atacada, talvez isso teve influência na dor excessiva?
    Até hoje depois de 2 meses ainda sinto o ouvido direito diferente e meio que tampado, marquei uma consulta, pq depois do salto ainda fiquei uns 3 dias ouvido mal.
    Será que se a empresa tivesse dado protetores de ouvido, teríamos evitado todo este desconforto?
    Muito obrigada pela resposta.
    Att

    • “Será que se a empresa tivesse dado protetores de ouvido, teríamos evitado todo este desconforto?”
      Acredito que não. Tampões não inibem a pressão. Seu certamente suas vias estavam tampadas antes, devido a rinite (coriza e tal). Não se salta nessas condições. 🙁

  6. VILMAR em

    Olá, quero saltar mais tenho o timpano rompido do lado direito e do esquerdo ja foi operado e não há furo. Posso saltar nessas condições?

    • Oi Vilmar…

      Honestamente não sei responder essa pergunta. Vc já procurou médicos para ter algumas opiniões? Se sim, compartilha conosco.

      Abraços,
      Mancuzi

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