O Instrutor e o Fator Humano

Alguns instrutores apoiam a ideia de que os saltadores militares que transitem para o pára-quedismo desportivo necessitam de um treino específico. Esta ideia é especialmente oportuna quando o saltador vai usar um equipamento diferente, por exemplo, um piloto de mão em vez de um punho metálico. No entanto, as justificações normalmente apresentadas para este treino, passam por vezes no limiar do ridículo quando se julga, no pára-quedismo desportivo, que a capacidade técnica do saltador – pelo simples facto de se ter iniciado na queda livre pela via militar – é reduzida ou deficiente.
Tal conceito, além de tendencioso é enganoso. O treino exausto e completo a que este saltador foi sujeito, fez dele um “expert” numa área que, sendo dentro do pára-quedismo, apresenta diferenças tão complexas quanto as de levar a mão a um punho situado à altura o peito ou agarrar um piloto posicionado na tira de perna… tão perto e afinal tão longe.

Em Março de 96, nos E.U.A., um acidente mortal envolveu um saltador militar.

Um acidente no pára-quedismo é sempre lamentável e só se pode esperar que ambos, civis e militares possam aprender algo com estas tragédias.

O reporte de acidentes em publicações como o Skydiving, a Parachutist ou a ParaMag, é uma grande ajuda à compreensão e à prevenção deste tipo de situações.

Embora não tendo tido informações concisas sobre a forma como ocorreu este incidente, reconheço – do meu ponto de vista como instrutor militar e civil – a grande probabilidade de que a importância do factor humano contribuiu para esta fatalidade. A Força Aérea há muito que reconheceu que as falhas nesta área são a principal causa dos acidentes, seja em terra seja no ar. Com a evolução técnica dos equipamentos, em especial na área da segurança, as falhas provocadas pelo factor humano são agora a principal causa de maior parte dos acidentes no pára-quedismo.

No caso deste saltador militar, ele puxou a almofada de corte de suspensão em vez do piloto extractor.

O factor humano de que venho falando incluí no mínimo: Treino transitivo e Inibição Proactiva.

 

TREINO TRANSITIVO

A área do treino transitivo faz ressurgir o problema em que os hábitos adquiridos em treinos prévios podem afectar a nossa performance em novas situações. Neste caso, um processo transitivo negativo poderá ter contribuído para esta fatalidade porque os conhecimentos adquiridos anteriormente interferiram com a nova aprendizagem.

Os militares apostam em elevados níveis de treino pessoal para reagir automaticamente em situações de grande stress.

Um S.O.G.A. (Saltador Operacional de Grande Altitude) possui um enorme e completo treino em sala, no solo, no arnês suspenso e em vídeos de treino. Estes saltadores são treinados para automaticamente efectuarem os seus exercicios na maior perfeição seja no escuro da noite, com as restrições visuais impostas pelas máscaras de oxigénio e a redução do tacto provocado pelas enormes e volumosas luvas, e ainda carregando grandes sacos de equipamento e armamento.

Por necessidade, os militares dispendem imenso tempo assegurando-se de que o indivíduo possa ser bem sucedido sob as mais adversas situações de combate. br>

Os instrutores civis que ensinam as técnicas de pára-quedismo a saltadores militares, podem não prestar adequada atenção ao treino anterior que o seu aluno possui e o factor negativo que o impacto desta transição pode ter no saltador que estuda diferentes procedimentos. Alguns, não chegam sequer a aperceber-se do impacto que este novo treino tem no ensino da actividade pára-quedista desportiva a um pára-quedista militar.

O mais importante, é a transição para um equipamento diferente, que normalmente também exige a alteração dos procedimentos de emergência anteriormente aprendidos.

De facto, vários saltadores poderão questionar como é que este saltador pôde cometer um erro “tão básico”…

Talvez desconheçam os saltadores e mesmo os instrutores, os efeitos do “treino transitivo negativo”.

É pois muito importante que os instrutores civis que recebem alunos já praticantes de pára-quedismo militar, os recebam como se estes se apresentassem etiquetados com:

“Cuidado!!
Este homem está de tal forma treinado e qualificado que qualquer outro
treino similar, mesmo tão básico quanto a abertura do pára-quedas
principal, necessitará de uma preparação intensa, exaustiva e cuidada!!”

 

INIBIÇÃO PROACTIVA

Um outro factor humano, Inibição Proactiva, limita ou anula a nossa capacidade de assimilar uma dada quantidade de informação que interfira com a outra anteriormente assimilada sob o mesmo assunto.

O grau de aprendizagem da matéria inicialmente adquirida aumenta significativamente a interferência com a nova aprendizagem. Quanto mais similar for a matéria a ministrar, maior será o grau de interferência.

Por outras palavras, não houve esquecimento do saltador de puxar o punho correcto, aconteceu foi que a “memória prévia” era tão forte que bloqueou a “utilização” da nova informação. A memória estava lá, só que estava inacessível.

Tenho a certeza que o instrutor de AFF lembrou ao seu aluno que o equipamento desportivo que estava a utilizar não dispunha de RSL, o que normalmente não acontece nos equipamentos militares utilizados nos saltos HAHO/HALO(1). Mas mais uma vez, sob stress, ele pode ter sido incapaz de aceder a esta informação.

Para terminar, cada um de nós, independentemente de saltarmos no exército, desportivamente ou em ambos os campos, é responsável pelo accionamento do seu próprio reserva. Para todos os efeitos, o treino deste saltador falhou confirmando todos estes factores e deixando em aberto a questão sobre o treino de emergências para saltadores qualificados em HAHO/HALO.

Acredito que esta falha se deva a um inadequado uso de um vulgar arnês suspenso, mas isso são outras conversas…

(1) HAHO: High Altitude High Opening / HALO: High Altitude Low Opening


Um comentário sobre “O Instrutor e o Fator Humano

  1. Gabriel José Rochetti Soares em

    Excelente matéria! O que o paulo quer demonstrar com suas observações, diz respeito à experiência que se deve ter com relação ao tipo de atividade que se vai praticar, seja militar ou desportiva. Ainda que se tenha experiências nas duas modalidades; operacional ou desportiva, aconselha-se um “voo mental” totalmente equipado, ainda no solo ou mesmo no interior da aeronave, antes da decolagem. Fiz parte de um excelente grupo ( dezesseis anos ) que, antes de qualquer missão utilizava-se dessa prática, nunca tivemos nenhum acidente, incidentes sim, mas devido ao treinamento, sem maiores consequências.

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