Faça o que tem que ser feito

ou Sobre a importância de ter foco no essencial.

Há uma filosofia que o curso de paraquedismo me deu de presente e que se tornou uma lanterna que ilumina meus dias. No meu primeiro salto do curso, quando eu me preparava para sair pela porta do avião com meu próprio paraquedas, meu instrutor dizia “Independente do que estiver sentindo, faça o que tem que ser feito”.

 foto de leonardo blasch - aeroclube de manaus
Leonardo Blasch – Aeroclube de Manaus.

Ali, em solo, talvez aquela filosofia não fizesse tanto sentido porque era difícil entender como eu contrariaria o combinado, mas a frase ficou se repetindo na minha mente como um mantra.

E então eu me equipei: coloquei o macacão, ajustei o capacete, peguei meus óculos, chequei meu altímetro, testei meus rádios (sim, aluno de paraquedismo usa rádio para ouvir coordenadas e não pousar na casa de ninguém e sim no aeroclube) e coloquei minha mochila com o paraquedas. Completamente equipada era hora de seguir para o avião. Rádio ligado enquanto eu caminhava para o avião, “Paula, braços altos”, fiz os braços altos, “Paula, esquerda, não Paula, es-quer-da”, teste de rádio ok.

foto leonardo blasch aeroclube manaus
Leonardo Blasch – Aeroclube de Manaus.

Entrar no avião é um dos momentos que produz um pico de adrenalina. “Daqui eu só saio voando”, sempre penso. E lá estava eu, meus dois instrutores do primeiro nível, e outros tantos paraquedistas dentro do caravan sem portas que subiria até 12 mil pés para enfim nos lançar nos céus de Manaus para testarmos nossa habilidade de voo na queda livre, comandarmos nosso paraquedas a 6 mil pés e pousarmos sãos e salvos no aeroclube de Manaus.

Quando o altímetro marca 10 mil pés iniciamos os procedimentos de checagem novamente. Nessa hora o coração tem picos de alegria e ansiedade e quando o mestre de porta observa que estamos na mira certinha do aeroclube, ele grita para o piloto da aeronave “Corta!”.

O avião diminui a velocidade, se mantém alinhado e os paraquedistas, um a um, seguem para a porta e se lançam no espaço. Talvez meus reflexos e meus instintos de sobrevivência entrem em modo ON nesse momento e me façam pensar mil vezes se aquilo é mesmo algo que um humano sem asas poderia fazer por livre e espontânea vontade. A voz do instinto pede mesmo a vez. E o mantra fazia todo sentindo nesse momento. Independente do que estava sentindo, eu caminhava para a porta do avião, fazia os procedimentos combinados para a saída e saia voando. Independente do que estava sentindo, a 6 mil pés eu comandava meu paraquedas. Independente o que estava sentindo, eu seguia as orientações do rádio e pousava em segurança no aeroclube.

Não interessa se estamos diante da queda livre mais incrível do mundo, faça o que tem que ser feito e comande seu paraquedas na altura combinada. Não interessa se voar sobre onde eu bem entender com meu próprio paraquedas parece algo alucinante, faça o que tem que ser feito e voe sobre a área combinada.

E assim, de “faça o que tem que ser feito” em “faça o que tem que ser feito” criei uma disciplina que não vale só para o paraquedismo, mas para tudo na minha vida.

Se o cansaço é demais para fazer minha corrida matinal, eu vou me levantar mesmo assim e farei minha corrida. Se minha vontade é de trabalhar até altas horas da madrugada, eu largarei meu notebook e me prepararei para dormir as horas que acredito serem necessárias. Se ficar por horas nas redes sociais parece mais atrativo, fecharei todas as janelas e abrirei meu livro. Se meu desejo é devorar as cinco barras de chocolate que estão na geladeira, comerei um tablete apenas. Se o atalho parece mais simples, seguirei pela trilha combinada, pois apesar de mais longa ela vai me mostrar o caminho mais belo. “Faça o que tem que ser feito…”

Com minha lista de desejos e realizações para o novo ano em mãos, vou olhar para os grandes propósitos que tenho nessa vida, no que realmente quero realizar na minha vida e na vida das pessoas, no que é mais valioso e essencial para mim, e vou colocar em primeiro lugar a cada dia da minha vida, como tenho feito há meses, desde que terminei meu curso de paraquedismo.

“Independente do que estiver sentindo, faça o que tem que ser feito” é meu mantra, um ótimo mantra para um 2014 de realizações. Que seja um ótimo ano para nós.

 foto skydive amazonas
Paula Quintão, foto Skydive Amazonas.

Paula Quintão é Escritora, publicitária, montanhista-viajante, paraquedista, mestre em Ciência da Informação pela UFMG e doutoranda em Ciências do Ambiente pela UFAM, fundadora da Equipar Consultoria e Treinamentos. Escreve em seus blogs Manaus pra Mim(manauspramim.com.br) e Um novo Eu (blogequipar.com). Se quiser entrar em contato, é só mandar um e-mail (pgquintao@gmail.com)

Fonte: http://www.luchiari.com.br/blog-paraquedismo/?p=300

2 thoughts on “Faça o que tem que ser feito

  1. Felipe Schinermann em

    Olá, resolvi procurar sobre curso de pqd e primeiro salto, pois estaria hoje saltando pela primeira de muitas vezes com o grupo Lobo PQD, um sonho que esta prestes a ser realizado, porem a area foi transferida pelo fato da previsão do tempo nao colaborar, enfim, cada vez que leio um depoimento como o seu tenho mais certeza de que fazer o curso de primeiro salto é o que eu mais quero este ano, e depois do curso saltar varias outras vezes, sair de ponta cabeça de dentro do avião, rsrs… Escalada, pendulo e rapel, acho que não gera tanta adrenalina quanto pqd, independente do que eu estiver sentindo farei o que terá que ser feito! Area transferia pro segudo fds de março, mais tarde posto algumas fotos e vídeos do meu primeiro salto! Felipe, mantém… mão esquerda… Mão direita… Mão DIREITA, agora é com vocé, faça o que tem que ser feito! 😉 hahaha

  2. Carlos Alberto Guarnieri em

    Gostei muito do seu depoimento, hoje não salto mais mas me formei Pqd em 1982 e Instrutor em 1986 meus Parabéns eu sempre dizia a meus Alunos que o Paraquedismo ajudaria e muito em suas vidas, seu depoimento me fez ver que eu não estava errado. Abraço

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