DEMONSTRAÇÃO: ENTRE A GLÓRIA E A TRAGÉDIA


O que você precisa saber sobre saltos de demonstração, atividade que parece fascinante aos olhos do publico, MAS QUE CONTABILIZA UM CRESCENTE NÚMERO DE ACIDENTES.

O passado recente tem mostrado o quão maléficos ao esporte são os saltos de demonstração. Ao invés desta atividade divulgar uma imagem bonita, relacionada à técnica e segurança, e não à idéia de que os pára-quedistas são levados ao sabor do vento, o que vemos é o crescimento de acidentes e incidentes. Esse quadro pode espantar uma ou mais gerações daqueles que poderiam ser potenciais praticantes.

Participei de dois mundos distintos no que diz respeito às demonstrações, o informal – recebemos um convite e o objetivo é pessoal e ligado meramente ao salto, e o formal – vivido sob as asas do Circo Aéreo, onde o objetivo era atender à necessidade do contratante e o salto era apenas a ferramenta para atingir esse objetivo.

Essa diferenciação entre atender a necessidade do pára-quedista ou a do cliente é o que distingue o sucesso do Circo Aéreo das não bem-sucedidas demonstrações informais. Afinal, o índice de incidentes e o comprometimento com o desejo do cliente é o que garantirá o contrato para próximo evento – ou não. Experiência e material (leia-se velame) adequados, alinhados ao atendimento das necessidades dos contratantes é a fórmula do sucesso.

 

Cliente

Entende-se por cliente, aquele que contrata a demonstração. Tanto este como o público, geralmente, são leigos e acreditam que o pára-quedismo é um esporte perigoso e os velames têm dirigibilidade limitada. Há ainda os que imaginam que os velames não têm dirigibilidade, são redondos e verdes.

Outro fator muito relevante (do meu ponto de vista, como apreciador dos pousos de alta velocidade) é que o cliente e o público abominam os pousos radicais: primeiro pela rápida perda de altura e segundo, pela alta velocidade. Ambas as situações passam a impressão de descontrole da situação.

Pousar em pé e no centro do alvo são os desejos do contratante e público. Isso parece simples para nós, mas para outros olhos, nem tanto. A sensação é que tal resultado é fruto do total controle do pára-quedista sobre seu equipamento; que o espaço previamente reservado (onde em geral ficam as pessoas de maior relevância para o contratante) é realmente o palco do show e que, por todos terem pousado em pé e no alvo, provavelmente, estes são os melhores pára-quedistas da região.

Isso traz ao organizador o sucesso parcial de seu evento (visto que normalmente o salto de demonstração é uma, entre várias atrações), colocando-o em destaque. Muito provavelmente, ele verá o pára-quedismo como uma carta na manga para futuros projetos, como um ponto forte de atração, um chamariz.

 

Público

Complementando o que escrevi acima, o público funcionará tanto como balizador da satisfação do organizador, como também, a demonstração poderá garimpar novos adeptos e novas oportunidades de demonstrações. Mostrar eficácia na consecução do salto é eliminar velhos preceitos sobre a falta de controle dos velames.

Muito diferente das acrobacias aéreas, o pára-quedismo tem uma grande penetração junto ao público, pois após um salto bem sucedido o pára-quedista pode interagir com as pessoas, mostrando que esta atividade é desempenhada por pessoas de carne e osso, elas também podem fazer isso.
Isso torna o pára-quedismo tangível para quem normalmente acompanha de longe, ao passo que pilotos de vôos acrobáticos ou em formação fazem o show e vão embora (quando o evento não é realizado num aeródromo, como campos de futebol, autódromos etc.).

 

Contratado

Aqui começa um dos problemas. Nem sempre a pessoa ou o pára-quedista que “consegue” a demonstração é apto ou tem experiência suficiente, tanto para administrar, como para saltar durante a demonstração. Conheço casos de pára-quedistas que fizeram comentários do tipo “ou eu vou, ou não tem
demonstração”.

Administrar uma demonstração significa providenciar procedimentos formais, como autorização escrita do local do salto, aeronave e outros detalhes necessários à solicitação de NOTAN e prazos envolvidos.

Sempre é interessante, para não dizer primordial, que se assuma um contrato formal, de forma a garantir ou dar subsídios às cobranças judiciais, em caso de não pagamento e fatores alheios ao intento.

A seleção e as limitações impostas pela área de pouso da demonstração, como vento predominante, particularidades locais, bem como os “obstáculos” ao salto (balões, carro de som, palanque, arquibancadas) são de vital importância, do ponto de vista da segurança e da consecução da demonstração. Se o contratado não buscar ajuda e não souber ouvir alguns “nãos” correrá o risco de não apenas deixar de realizar a demonstração, como também, (o que é pior) fazê-la de forma imprópria, insegura e assustadora.

 

Pára-quedista

Bem-vindo ao segundo problema. É certo que todos precisam de uma oportunidade para aprender e um dia ser experiente em demonstrações, mas um mínimo de bom senso é fundamental. E este bom senso tem de partir tanto do contratado como dos pára-quedistas que vão saltar no evento, que têm de entender a razão da existência dos saltos e a necessidade de satisfazer o contratante. Resumindo: pousar em pé e no alvo.

Pelo simples entendimento da questão (pousar em pé e no alvo), já seria possível encerrar este texto. Fica claro que pessoas que não conseguem pousar sempre no mesmo espaço nos saltos normais não são aptas a um salto de demonstração. E isso independe da quantidade de saltos. Também deveria estar claro que pousos em pé, mas previamente conturbados pelo uso excessivo de batoques, velocidade e consumo de espaço aéreo na manobra de pouso, também não são bem-vindos, pois assustam o público.

Em geral, velames rápidos são desaconselháveis nesta atividade. Além do que já foi relatado, durante as demonstrações é comum surgirem pipas, balões, fios elétricos ou de som, cruzando uma área de pouso. Velames lentos propiciam mais segurança ao pára-quedista, que dispõe de tempo extra para analisar problemas de última hora e, no caso de uma colisão ou entrelaçamento com uma pipa, não cortaria suas linhas ou mudaria a linha de vôo do velame.

No Circo Aéreo sempre tivemos muitos pára-quedistas experientes e alguns até de renome nacional. Não foram poucas as vezes em que estes profissionais, tão acostumados aos pousos de alta velocidade, se recusaram a participar de demonstrações. Isso acontecia por possuírem um velame rápido, o que oferecia perigo à condição de pouso ou porque não se “lembravam” de como voar com um velame lento. Em síntese, não é a “graduação” ou a quantidade de saltos que deve ser levada em conta na escolha dos saltadores, mas sim, o quão precisos eles podem ser com equipamentos adequados à situação.

 

Local

Locais cercados por árvores, arquibancadas e construções agravam o nível de dificuldade do salto. Este tipo de ambiente, pode, dependendo do caso, determinar a decisão por abortar ou não a demonstração, no caso de existência de vento no momento do salto. Pousar com vento vindo de obstáculos implica em turbulência, mesmo as mais brandas turbulências são suficientes para o velame não responder ao flare e o pára-quedista não parar em pé.

Geralmente, o pára-quedista que salta entre 11 h e 15h está sujeito a muitas
ascendentes, em caso de dias ensolarados. Analisar a área na busca de variantes, como asfalto, árvores, água ou telhados pode definir os procedimentos de pousos alternativos (aproximação pela direita, por exemplo). Áreas desprovidas de obstáculos ao vento no sentido do pouso podem ou não prejudicá-lo. No entanto, obstáculos certamente são garantia de pousos fortes ou mesmo de incidentes.

Todos os pára-quedistas do salto devem comparecer para conhecer a área. Postes de iluminação ou um simples fio elétrico não mencionado no briefing podem comprometer a segurança dos pára-quedistas e do público.
Demonstrações em cidades distantes devem ter um cuidado especial, pois muitas vezes são locais totalmente desconhecidos e com surpresas desagradáveis. A cidade de Avaré (SP), por exemplo, tem chuvas e CBs diários aos finais de tarde, por ser uma região rica em lagos. Isso implica em mudanças de ventos e intensidade constantes e imprevisíveis, oriundas dos CBs.

Entender as demonstrações como “imagem do esporte” e “compromisso profissional com o contratante” determinam, por si, o que fazer e o que não fazer. Experiência e equipamentos adequados são necessários quando a situação exige. O desejo de participação em uma demonstração é grande, pois isso funciona como vitrine para amigos e conhecidos. Contudo, deve-se ponderar a respeito da imagem do esporte e respeitar àqueles que estão ali ansiando por ver um pára-quedista pousando, acreditando que um dia poderão fazer o mesmo.

TEXTO: EMÍLIO CALDEIRA

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