Acondicionamento dos cordões de suspensão



Há alguns anos atrás (não sei se 3 se 4), a nossa melhor Skysurfer de sempre, a Marta Ferreira, sofreu um incidente de abertura que consistiu na prisão de um cordão de suspensão da asa (velame) principal à base do contentor do reserva e consequentemente ao seu mau desenvolvimento. desta feita, ele fez cut away, mas a asa (velame… eu sei… velame!!) ficou presa com ela e ao abrir o reserva, a coisa ficou preta e aterrou a rodar, com ambas as asas ensarilhadas… o camera seguiu todo o incidente, filmando e aterrando junto dela. Ele era (e é) o marido da Marta e juntos têm um filhote, na altura com meses.

A Marta sofreu várias lesões, mas recuperou totalmente e tem como unica limitação… não saltar…

O incidente sdela foi super visionado e na altura, numa reunião nacional de instrutores eu apresentei o seguinte artigo que aqui vos envio (estou em dia de limpezas no computador e… encontrei mais um). O único problema, é que no texto inclui um desenho esquemático… que aqui não posso enviar.
Segue o texto e caso alguém pretenda o ficheiro com texto e desenho, avise que eu envio.

“O ACONDICIONAMENTO DOS CORDÕES DE SUSPENSÃO”

A propósito da descrição da forma como aparentemente se deu o desenvolvimento da calote principal da Marta, julgo ser importante dar a conhecer alguns detalhes referentes a situações capazes de provocar incidentes de abertura deste género, especialmente provocadas por um pequeno detalhe que já há muito vem sendo alertado pela comunidade de saltadores de Skysurf, Freestyle e Headdown.

Quando no verão de 95 cheguei a Ampuriabrava para frequentar o curso de Skysurf com a Vivianne, ela ainda se encontrava nos mundiais a decorrer na Turquia e fui informada que ele não chegaria senão na semana seguinte. Sabendo o pessoal de Ampuria qual era a razão da minha deslocação, e para que aproveitasse o bom tempo que se fazia sentir na altura, sugeriram-me que realizasse alguns saltos de free style com o Marco Manna. Aceitei de bom grado e após uns bons 50 saltos (bem) acompanhado, lá dei comigo a fazer umas coisas giras numas posições que me pareciam pouco familiares, especialmente a forma como agora realizava a abertura: em T.

Mais tarde e com a evolução característica de quem treina (mesmo sendo pouca a habilidade), passei a conseguir abrir com as costas direitas (braços abertos, uma perna para a frente e outra para trás os entendidos saberão por certo o nome desta posição. Eu já não o sei..). Foi nesta fase do meu estágio que, num dia ventoso em que não dava mesmo para saltar, chegou a Vivianne e após uma pequena reunião comigo se inteirou (visionando os filmes) de qual o meu “estado de graça” no Free style a fim de poder iniciar o treino para a prancha.

Deixou com o Collins (o rigger de Ampuria) a verificação do equipamento para se certificar se deveria alguma coisa ser alterada para a prática do Sky surf (sistema de abertura, especialmente). Tudo estava em ordem, o equipamento era novo. O Collins, achou por bem falar um pouco comigo, e foi precisamente sobre a hipótese de se prender um cordão do principal, na base do contentor do reserva. Resumindo, porque a conversa deu pano para mangas, a situação é a seguinte:

Desde há muito tempo que os saltadores quando preparam as tiras de suspensão do principal para meterem o saco no contentor, acondicionam os cordões fazendo com que estes contornem o contentor do reserva pela base. Eu mesmo me lembro de assim fazer e da maioria dos saltadores da nossa praça procederem do mesmo modo. Na realidade, tempos houve em que, apesar de no manual da vector (por exemplo) vir especificado que a forma correcta de o fazer não era esta, nada de mal havia em que assim o fizéssemos. Contudo, a evolução veio dar a volta à questão.

A evolução do pára-quedismo deu lugar ao aparecimento de novas disciplinas que possibilitam aos saltadores uma postura no momento de abertura dos seus pára-quedas totalmente contrária àquela para a qual eles foram inicialmente desenhados. Não pretendo de forma alguma afirmar que a posição de abertura tomada por estes saltadores é incorrecta, mas apenas que exige cuidados especiais para além dos normalmente tidos em conta aquando da abertura na convencional posição de papo para baixo. Este cuidado passa precisamente pelo acondicionamento da sobra de cordões que fica entre a ultima laçada de elásticos no saco interior e o anel desmontável (ou soft link) da tira de suspensão.

Junto envio um desenho (muito mal feitinho que eu para programas de desenho tenho muito pouco jeito…) onde pretendo ilustrar a ideia que me pretendo transmitir.

Depois, há ainda um outro factor a ter em conta e que pode ser altamente prejudicial: o Cypres.

Mas desde quando é que o Cypres pode ser prejudicial? perguntarão vocês. Calma, não é propriamente o Cypres, mas a forma como ele se encaixa no reserva e o volume que ele faz na base do contentor deste.

Se repararem, especialmente nos equipamentos que não vieram de fábrica preparados para o Cypres, todos os aparelhos ficam com algum relevo na base do contentor do reserva, ou seja a parede que separa o reserva do principal não se apresenta plana mas curva. A base desta parede está mais metida para dentro que o meio. Desta forma torna-se muito fácil a um cordão passar por aí e encontrar um apoio capaz de o fazer prender. Depois, se os cantos do contentor não estiverem bem preenchidos com o reserva (experimentem carregar com a mão nos vossos) a pala de protecção da tira de suspensão empurra fortemente o anel desmontável (ou o soft link) contra este levando os cordões a meterem-se lá bem em baixo. Em alguns equipamentos onde não é tida em conta a forma de acondicionamento dos cordões, nota-se mesmo os pontos de fricção dos cordões precisamente nos cantos exteriores do contentor do reserva e na zona volumosa onde assenta o Cypres.

Vários acidentes aconteceram já provocados por este pequeno detalhe. Eis a lista de alguns dos intervenientes com quem tive a oportunidade de falar sobre o acidente: Marco Manna, Ivo Vandermaesen, Vivinane, Luke Verstreppen,… e eu mesmo… com quem não precisei de falar, claro.

Já agora, na maioria dos casos o meu inclusivé, o contentor do reserva foi arrancado da base (parte que encosta ás costas). Felizmente a abertura, apesar da violência, deu-se de forma correcta não tendo necessidade de recorrer ao reserva… se tal fosse necessário… O arnês, um Atom, foi consertado na minha unidade (E.T.A.T.). Sei de um caso com um Racer em que asorte foi madrasta e o saltador teve de se socorrer do reserva… cujo contentor estava praticamente solto…

Neste momento tenho um arnês da escola de um amigo que está a ser
arranjado, precisamente pela mesma razão…

Estou à disposição para qualquer esclarecimento acerca deste artigo.

Paulo Moreira da Silva

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.